Uma reflexão sobre o tema e sua validade nos relacionamentos e na vida nos dias atuais. Para quê serve, afinal? Qual a sua validade, finalidade? Por quem e pelo o quê devemos ser fiéis? Pense comigo.

Por Flávia Lippi

O espírito fiel é o próprio espírito. Pego o problema de longe, porque ele é imenso. A fidelidade não é um valor entre outros, uma virtude entre outras: ela é aquilo por que, para que há valores e virtudes. Que seria a justiça sem a fidelidade dos justos? A paz, sem a fidelidade dos pacíficos? A liberdade, sem a fidelidade dos espíritos livres? E que valeria a própria verdade sem a fidelidade dos verídicos? Ela não seria menos verdadeira, decerto, mas seria uma verdade sem valor, da qual nenhuma virtude poderia nascer. Não há sanidade sem esquecimento, talvez; mas não há virtude sem fidelidade. Higiene ou moral. Higiene e moral. Porque não se trata de esquecer nada, nem de ser fiel a qualquer coisa. Nem a sanidade basta, nem a santidade se impõe. “Não se trata de ser sublime, basta ser fiel e sério.” Aí está. A fidelidade é virtude de memória, e a própria memória como virtude.

A fidelidade vale em si mesma? Para si mesma? Por si mesma? Não, ou não somente. É sobretudo seu objeto que constitui seu valor. Não se muda de amigo como de camisa, notava aproximadamente Aristóteles, e seria tão ridículo ser fiel a suas roupas quanto condenável não o ser a seus amigos ‒ salvo, como diz alhures o filósofo, “excesso de perversidade da parte deles”. A fidelidade não desculpa tudo: ser fiel ao pior é pior do que renegá-lo. As SS, tropas de elite de Hitler, juravam fidelidade a ele; essa fidelidade era criminosa. Fidelidade ao mal é má fidelidade. E “a fidelidade na tolice”, observa Jankélévitch, “é uma tolice mais”. Cabe aqui ‒ fidelidade de escolar, ainda que rebelde ‒, citar mais longamente o mestre:

A fidelidade é ou não louvável? “Conforme”, ou seja: depende dos valores a que se é fiel. Fiel a quê? (...) Ninguém dirá que o ressentimento é uma virtude, embora ele permaneça fiel a seu ódio ou a suas cóleras; a boa memória da afronta é uma má fidelidade. Tratando-se de fidelidade, o epíteto não é tudo? E há ainda uma fidelidade às pequenas coisas, que é mesquinharia e tenaz memória das bagatelas, repisamento e teima. (...) A virtude que queremos não é, pois, toda fidelidade, mas apenas boa fidelidade e grande fidelidade. (Jankélévitch)

Muito bem: a fidelidade amante, fidelidade virtuosa, fidelidade voluntária. Não basta lembrar-se. Pode-se esquecer sem ser infiel, aliás, e ser infiel sem esquecer. Melhor, a infidelidade supõe a memória: uma pessoa só pode ser fiel ou infiel àquilo de que se lembra (um amnésico não poderia nem manter nem trair sua palavra), e é nisso que fidelidade e infidelidade são duas formas opostas da lembrança, uma virtuosa, a outra não. A fidelidade é “a virtude do mesmo”, dizia ainda Jankélévitch; mas, num mundo em que tudo muda, e é o mundo, só há mesmo por obra da memória e da vontade.

Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, nem ama duas vezes a mesma mulher. “Ele já não ama a pessoa que amava há dez anos. Acredito: ela não é mais a mesma, ele também não. Ele era jovem, ela também; ela está completamente diferente. Ele talvez ainda a amasse tal como ela era então.” (Pascal)

A fidelidade é a virtude do mesmo, pela qual o mesmo existe ou resiste. Por que eu manteria minha promessa da véspera, já que não sou mais o mesmo hoje? Por quê? Por fidelidade. É esse, de acordo com Montaigne (1533-1592), o verdadeiro fundamento da identidade pessoal: “O fundamento de meu ser e de minha identidade é puramente moral: ele está na fidelidade à fé que jurei a mim mesmo. Não sou realmente o mesmo de ontem; sou o mesmo unicamente porque eu me confesso o mesmo, porque assumo um certo passado como sendo meu, e porque pretendo, no futuro, reconhecer meu compromisso presente como sempre meu”.

Como eu poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção, os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a esse amor que vivemos.

 

Flavia Lippi
Author: Flavia Lippi

CHO - Chief Health & Happiness Officer – 

IDHL – Instituto de Desenvolvimento Humano Lippi

Coach, Mentora, Mediadora, Transformadora

Brinca de andar nos corredores do poder. Tem medo da ambição que corrompe amizades e da indelicadeza que corrói amores. Amiga e ouvinte de neurônios, fígado, coração e entranhas. Marca registrada: sorriso largo.


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